para atravessar agosto
é preciso, antes de tudo, paciência e fé.
paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada
aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e
também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de
cachorro louco. é preciso quem sabe ficar-se
distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de,
por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. então dizer mentalmente ah!
escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. este é um
ponto importante: ir, sobretudo, em
frente.
para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com
gosto, sem comprimidos, de preferência
também sem sonhos. são incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam
a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros
augúrios, premonições. armazenar víveres, como às vésperas de um furacão
anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de
qualidade.
(...)
não lembrar dos que se foram, não desejar o que
não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de
preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar,
vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. controlar o excesso de
informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de
serem maiores do que são. esquecer o zaire, a ex-iugoslávia, passar por cima
das páginas policiais. aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das
bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. é isso mesmo, evasão, escapismos,
explícitos.
mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso
principalmente não se deter de mais no tema. mudar de assunto, digitar rápido o
ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.

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